Proposta Curatorial

Muitas das descrições estrangeiras dos Açores foram escritas no contexto de expedições, por mentes racionalistas em sintonia com o espírito do Iluminismo, no século XIX. Classificam e categorizam plantas, animais, paisagens e as comunidades das ilhas. Mas nem todas as dimensões podem ser medidas por sistemas racionais. As propriedades magnéticas das rochas, os tremores da terra, a iminente ascensão da lava rugindo, são eventos que desafiam escalas lógicas, ocorrências que dificilmente podem ser previstas. Escapam aos sistemas racionais de pensamento. Mitos ou rituais, assustados ou profanos, talvez melhor captem a força e magnitude de tais eventos.

A nossa expedição, ao contrário das do século XIX, interessa-se por fenómenos imensuráveis, irracionais e ininteligíveis. Tomando uma abordagem baseada na empatia, procura-se fundir em vez de medir, personificar em vez de classificar, viver e não explicar. Incorpora a ilha e produz experiência no terreno, em colaboração com as comunidades e as paisagens. Os Açores foram povoados no século XV e desde então os humanos tentaram domesticá-los. Mas esta não é uma paisagem para se viver. Ao longo dos séculos, as ilhas expeliram milhares de pessoas quando os vulcões entraram em erupção. O rugido eminente da lava é a certeza de que se trata de um acordo precário entre terra e humanos.

O pensamento racional que chegou a dominar o mundo no século XIX é hoje reconhecido como profundamente ligado aos processos globais de industrialização e, consequentemente, ao aquecimento global. A mudança climática é um fenómeno produzido por mãos e mentes humanas, e em que certos humanos assumem uma posição de privilégio e poder em relação a outras espécies e outros povos. Inspirados no posicionamento de Michel Serres dos seres naturais como entidades com direitos legais, numa época em que o sublime não é mais possível porque não podemos vigiar a natureza a partir de uma posição distante de segurança (Latour), aproveitamos para fazer uma expedição que repensa a nossa relação atual com a natureza e ensaia abordagens alternativas.

The Decorators
Jan 2019

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Artistas anunciados em Março